UM IMPASSE

8 11 2011

Cão: Não compreendi aquilo que vocês estiveram a discutir.
Pincha: Falámos da política actual deste governo e da necessidade de fazer greves para a contestar.
 

Cão: Parece-me que as greves são mais prejudiciais para o povo do que para o governo.
Pincha: Em parte, podes ter razão, mas se não for esse meio, como iremos manifestar o nosso descontentamento? As manifestações têm de ser aprovadas pelo Governo, que pode arranjar artifícios para não as permitir.
 

Cão: Mas, repara. Quando há uma greve, quem fica duplamente lesado é o povo. Antes de tudo, fica sem os serviços a que tem direito e pelos quais paga com os custos e os impostos. Uma greve também provoca prejuízos financeiros que são posteriormente suportados com os tais impostos, que deveriam ser utilizados para fins mais adequados. Os manda-chuvas desses serviços ou empresas não sofrem nada na pele. Têm os seus serviços de transportes, de saúde e de benesses quase luxuosos e privativos, pagos com os nossos impostos.
Pincha: De facto, além dos vencimentos avultadíssimos dos quais o Paulinho das Feiras já se esqueceu, também continuam a receber prémios de gestão mesmo quando as suas empresas estão endividadas.
 

Cão: Quem foi que os colocou nesses lugares?
Pincha: Tens razão. O Governo, que foi constituído com os nossos votos, deu-lhes legitimidade para fazerem tudo o que nós agora contestamos. E não é pouco o que temos de contestar e exigir.
 

Cão: Se vocês votam neles…
Pincha: Votamos, mas com um programa eleitoral diferente daquele que eles adoptam logo que chegam a governo. Não vês o que acontece com o Paulinho das Feiras?
 

Cão: E se vocês exigissem que os partidos apresentassem na campanha eleitoral um programa de governo, para o caso de esse partido ganhar as eleições?
Pincha: Isso seria muito complicado, porque sendo necessário constituir governo com mais do que um partido, haveria sempre a possibilidade de «fugir legitimamente» a esse compromisso.
 

Cão: Então, porque razão os candidatos eleitos não se limitam ao que prometem nas campanhas?
Pincha: Achas que eles seriam eleitos se dissessem a verdade ou aquilo que eles iriam fazer se fossem governo? Isso seria o seu descalabro. Ninguém seria eleito. Eles até oferecem chouriços, electrodomésticos e muitas coisas mais, para serem eleitos. Porque não oferecem isso depois de ser eleitos? Repara que qualquer partido, além de dizer mal dos seus concorrentes, vai tentar saber aquilo que o povo deseja. Baseia-se nisso, para fazer o seu programa eleitoral que agrade a esse povo e adoça-lhe a boca no momento oportuno. Têm os seus apoiantes e simpatizantes que fazem a propaganda de tudo, à espera que lhes saia a sorte grande ou pequena, quando o seu partido for governo. Então, poderão abichar alguma benesse. Depois de estar no governo, como não têm qualquer compromisso escrito, que até a Trioka exige agora, podem dar as justificações que entenderem para fazer aquilo que mais lhes convier. Podem sempre invocar a incompetência e a falta de transparência do governo anterior e basearem-se nisso, para tomar as medidas que acharem convenientes.
 

Cão: Assim, ficamos num impasse e a prejudicar-nos cada vez mais.
Pincha: Tens toda a razão. Os prejudicados seremos sempre nós, enquanto não arranjarmos políticos que se preocupem mais com o povo que os elege do que com eles próprios e com os seus mesquinhos interesses pessoais. Os políticos enganam o povo quando querem o seu voto, para logo depois o decepcionarem com as medidas tomadas.
 

Cão: Achas que haverá alguma solução?
Pincha: A única solução viável, parece que está connosco. Os políticos não são pessoas como nós que até foram nossos colegas e amigos? Porque mentem ao povo ao qual pertencem e que é, muitas vezes, decepcionado e defraudado, quando, com o seu voto, arranjam a mais pequena oportunidade de mandar? Da mesma maneira como há ladrões e criminosos, existem os políticos que, logo depois ter o poder na mão, se desviam dos princípios da ética e da moral para se servirem do povo, depois de lhe terem garantido que o iriam servir. Para combater isso, a única coisa que posso imaginar, é educar todas as pessoas de uma maneira que não se tornem criminosos, nem políticos desonestos. A outra medida, é os eleitores tomarem nota do percurso cívico e ético dos candidatos, para os apoiar ou afastar da pretensão ao lugar que desejam ocupar. Também, depois de estarem no poder, todos temos a obrigação de os fiscalizar, escrutinar e denunciar o que está mal. Os meios de comunicação social honestos têm de servir para isso. Fazer greves, não me parece ser uma boa política. Se pudéssemos ir aos bolsos desses políticos e sacar alguma coisa, é que seria também uma boa medida preventiva ou correctiva. Eles têm de sentir na pele, o mal que estão ou estiveram a fazer. Não é dar-lhes subvenções vitalícias, nem bons lugares de topo, depois de todo o mal que nos acabaram de fazer. E oxalá que as abstenções não vão aumentando com a desilusão que se vai instalando a pouco e pouco neste cantinho à beira-mar plantado.


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