Cão: Já não conversávamos há muito tempo! Soubeste a confusão que se criou à volta de Mário Crespo que tantas novidades nos proporcionou?
Pincha: Se calhar, houve alguém que não gostou dessas «novidades».
Cão: Chamarem-lhe débil mental e impreparado para o jornalismo, nem que seja a brincar, é demais.
Pincha: Também tanta gente pensa que quem diz isso pode ser um vigarista bem disfarçado de honesto, outro débil mental ou, simplesmente, alguém que não o conhece ou quer que ele não fale das coisas porque o incomodam. Lembras-te da nossa conversa sobre o «desbocado»? Qualquer dia, também lhe chamam «maluco» ou «velho demente», se não lhe atribuírem um epíteto ainda pior. No tempo do «antigamente» até eram capazes de lhe chamar «subversivo». É um método que qualquer ditadorzeco ou aspirante a isso utiliza quando as coisas não lhe correm de feição.
Cão: Achas isso bem?
Pincha: Acho muito mal e, por isso, fiquei muito satisfeito até ao 2 de Maio, porque comecei a compreender que a partir daí iam surgir mais candidatos a ditadores porque o POVO só estava preparado, como até agora, a «aguentar» e nunca aprendeu a ser autónomo, independente e audacioso. E isso foi em 1974!
Cão: Porquê?
Pincha: Porque não é instruído nem educado para ser independente. Tem pouca instrução e necessita de um paizinho que o ajude a pensar e decidir. Não quer correr riscos nem deseja mudanças. Quer «o pão nosso de cada dia» sem grande esforço e, se tiver alguma «folga monetária», procura adquirir algo mais do que o vizinho para se sentir superior. E os governantes exploram tudo isto embora digam que fazem muita coisa para aumentar o nível de instrução. O que mais proporcionam são equipamentos caros e raros que se acumulam sem a utilização devida, mas que dão lucro a quem os adquire.
Cão: Achas que não somos suficientemente independentes?
Pincha: Ficamos sempre muito satisfeitos quando e Europa ou a América nos elogia. Será que não temos capacidade de nos auto-avaliarmos? Desconhecemos o nosso valor? O que fazem os emigrantes que só prosperam quando vão lá para fora e lhes são reconhecidas as suas capacidades? Os que ficam, quando são capazes, nunca vêem reconhecido o seu valor, a não ser que pertençam a algum «lobby». Os «deste» são glorificados e apresentados pelos nossos governantes como sacrificando-se pela Nação ou pelo Povo. Não existe ninguém que passe pelo governo que seja considerado incapaz até ser substituído, pela «força das circunstâncias» para ir depois «abichar» um qualquer «tacho» previamente combinado.
Cão: Falas mal dos governantes mas repara que eles até já querem colocar os rendimentos na Internet.
Pincha: Os rendimentos de quem? Deles? Vão dizer quanto ganham? Quais as mordomias de que gozam? Carros, casas, ajudas de custo e de representação, viagens, cartões de crédito, etc. etc.? Quais as suas contribuições no IRS? Ou será que eles desejam «mascarar» muita coisa mandando o povoléu apresentar as suas contas? Quando os funcionários não são aumentados, qual a razão de se aumentarem as despesas deles? Se não houvesse no jornalismo «débeis mentais» como o Mário Crespo e «desbocados» como o Medina Carreira, o que saberíamos nós dos «meandros» da governação e dos assuntos públicos? São assuntos que me obrigam a pensar muito e a ficar preocupado. São coisas que a ti não dizem respeito porque o teu dono te dá comida e abrigo. Eu tenho de me governar sozinho.
Cão: Tens cada uma!
Pincha: Tirando os exageros de alguns e dos que andam a soldo de outros, se não tivermos um jornalismo interventivo para pôr a nu as mazelas da nossa sociedade, voltaremos ao «antigamente» dentro em breve porque a população, embora pouco alfabetizada, nada interventiva e muito capaz de ir atrás do «conto do vigário» que todos os aspirantes a governante «despejam» para cima dos cidadãos nas campanhas eleitorais, deixa-se ir atrás das facilidades e das «promessas».
Cão: Queres dizer que não estás satisfeito?
Pincha: Quero afirmar que estou desiludido até com as últimas eleições e desejo apenas que exista um quadradinho onde possa votar que não concordo com qualquer dos candidatos. Desejo sinceramente que apareça alguém com «sentido de Estado» e que, pelo menos durante o seu mandato, ponha os interesses do POVO acima dos seus.
Cão: E o que dizes de Mário Crespo?
Pincha: Só lhe posso mandar um abraço de muita simpatia e apreço pelo seu trabalho de «débil mental e louco» porque o outro «caso» qualquer dia será resolvido pelo povo se continuar como até agora. Até já comecei a dar mais atenção ao Paulinho das Feiras depois de o ouvir hoje na sua «convenção» ou coisa que valha. Que Mário Crespo continue a trabalhar na sua «loucura», contra ventos e marés, como até agora.
Cão: Queres dizer que de poeta e de louco todos temos um pouco?
Pincha: Sim. De vigarista e embusteiro é que não. Só alguns privilegiados que se acoitam no meio de outros comparsas.
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